A exposição prematura de crianças e adolescentes às telas de celulares
- Jornal Científico
- 14 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Atualizado: 19 de dez. de 2025
A atual geração, chamada geração Z, é também conhecida como a "geração digital", pois estão tendo contato com o mundo virtual cada vez mais cedo. Desde os primeiros anos de vida, os pais apresentam o mundo virtual aos seus pequenos. E alguns utilizam isso para "tentar" obter mais tempo para realizar suas tarefas pessoais ou do dia a dia, ou até mesmo para conseguirem um pouco de "tranquilidade".
Dados do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), publicados em fevereiro de 2025, apontam um crescimento expressivo no uso da internet e na posse de celulares entre bebês e crianças pequenas. Em 2015, apenas 9% das crianças de 0 a 2 anos utilizavam internet, percentual que saltou para 44% em 2024. Entre as faixas etárias de 3 a 5 anos e 6 a 8 anos, o aumento também é notável: 26% e 41% dos pequenos utilizavam a rede em 2015, e esses índices subiram para 71% e 82%, respectivamente.
Dos 0 aos 6 anos, a criança passa pela fase de desenvolvimento crucial em todas as áreas, já que essa fase é marcada pela formação acelerada do cérebro e pela aquisição de habilidades que serão a base para toda a vida. A exposição precoce e excessiva a telas (celulares, tablets, televisão, etc.) durante essa fase pode interferir negativamente no desenvolvimento saudável, principalmente porque reduz o tempo dedicado às atividades essenciais como a interação entre outras pessoas, brincadeiras ativas e até mesmo o sono). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), crianças de até cinco anos de idade não devem passar mais de 60 minutos por dia em atividades passivas diante de uma tela de smartphone, computador ou TV, e alertou ainda que bebês com menos de 12 meses de vida não devem passar nem um minuto na frente de dispositivos eletrônicos. Segundo a instituição, cerca de 40 milhões de crianças em todo o mundo – em torno de 6% do total de meninos e meninas – estão acima do peso, e com essas recomendações, eles visam que os meninos e meninas de até cinco anos troquem as telas eletrônicas pelas atividades físicas ou por práticas que não envolvam necessariamente exercícios, mas incluam interações no mundo real.

Assim como na infância, as tecnologias podem trazer impacto significativo na vida daqueles que estão começando a adolescência.
A adolescência (aproximadamente dos 10 aos 19 anos) é a fase da busca por autonomia, pertencimento e formação da identidade. O ambiente digital, se usado excessivamente e sem mediação, atua como um amplificador de pressões e riscos inerentes a essa etapa, ainda mais que ela já é marcada por muitas mudanças significativas, como a puberdade e formação do cérebro adulto.
O impacto mais imediato e preocupante está na saúde mental dos jovens. A exposição constante a vidas perfeitas e corpos idealizados nas redes sociais desencadeia um processo de comparação social destrutiva, resultando em sentimentos de inadequação, baixa autoestima e, em muitos casos, no desenvolvimento ou agravamento de quadros de ansiedade e depressão, que podem infelizmente levar ao suicídio. Segundo a Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde, Entre os adolescentes, a taxa de suicídio teve um aumento de 81%, indo de 3,5 suicídios por 100 mil adolescentes para 6,4. Nos casos em menores de 14 anos, houve um aumento de 113% na taxa de mortalidade por suicídios de 2010 a 2013, fazendo do suicídio a quarta causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.
A psicóloga Ramilla Xavier Nunes do CRAS do município de Itacajá-TO respondeu a algumas perguntas sobre como essa escolha pode trazer sérios problemas não só para o crescimento de uma criança, mas também para o adolescente.
Repórter: Como as mídias sociais podem interferir no crescimento de uma criança?
Psicóloga: Do ponto de vista do desenvolvimento infantil, as mídias sociais introduzem variáveis que podem interferir em áreas essenciais da maturação cognitiva, emocional e social. A infância é um período marcado pela construção progressiva de funções executivas — atenção sustentada, autorregulação emocional, capacidade simbólica e organização do pensamento — processos que dependem de experiências presenciais, interação humana e estímulos compatíveis com cada fase do neurodesenvolvimento.
O uso precoce e não mediado das mídias sociais pode gerar estímulos excessivamente rápidos e fragmentados, alterando o padrão de atenção e favorecendo respostas impulsivas, o que repercute na formação de habilidades de autorregulação. Além disso, a exposição a conteúdos inadequados à idade pode afetar a compreensão de normas sociais, a percepção de risco e a formação de vínculos seguros, uma vez que a criança tende a interpretar o mundo a partir de referências ainda pouco criticadas e altamente influenciáveis.
No campo socioemocional, a participação precoce em ambientes digitais pode introduzir comparações sociais disfuncionais, padrões estéticos irreais e modelos de comportamento distorcidos. A criança, por ainda não ter consolidado sua noção de autoconceito, torna-se mais vulnerável a interferências externas que impactam autoestima, segurança emocional e percepção de competência. A mediação parental e a oferta de experiências presenciais ricas são fatores essenciais para minimizar esses riscos.
Repórter: Para um adolescente que está em fase de formação de sua identidade, como o consumo de conteúdo digital pode impactar a autoestima e a percepção de si mesmo?
Psicóloga: A adolescência constitui um período crítico de desenvolvimento psicossocial, conforme apontado por teorias clássicas, como a de Erik Erikson, que descreve essa fase como marcada pela busca de identidade e consolidação do autoconceito. Nesse contexto, o ambiente digital atua como um espaço ampliado de interação social, mas também como um território de intensa exposição a normas de desempenho, estética e comportamento.
O consumo frequente de conteúdos em redes sociais e plataformas digitais pode intensificar a comparação social, especialmente quando há predomínio de narrativas idealizadas e filtradas. A discrepância entre a vida real e os padrões apresentados online pode gerar sentimentos de inadequação, redução da autoestima e internalização de padrões inatingíveis. Além disso, algoritmos que reforçam conteúdos semelhantes aos já consumidos tendem a criar “bolhas identitárias”, nas quais o adolescente é exposto repetidamente aos mesmos discursos, dificultando a construção de uma identidade autêntica e diversa.
Do ponto de vista emocional, o funcionamento das plataformas — baseado em métricas de engajamento como curtidas, comentários e seguidores — pode associar a validação pessoal a indicadores externos, interferindo na percepção de valor próprio. Em adolescentes com maior vulnerabilidade emocional, isso pode resultar em intensificação de ansiedade, comportamentos de evitação social e distorções na autoimagem.
Por outro lado, quando utilizados de forma orientada e crítica, os ambientes digitais também podem apoiar a formação da identidade, oferecendo espaços de pertencimento, expressão e experimentação simbólica. Portanto, o impacto é fortemente mediado pela maturidade emocional do adolescente, pela qualidade dos conteúdos consumidos e, sobretudo, pela presença de adultos de referência capazes de promover letramento digital e diálogo aberto sobre experiências online.
O Desafio de estabelecer limites: como agir
Para promover um estilo de vida mais saudável aos seus filhos(sem comprometer o seu futuro), é essencial principalmente para as crianças, que os pais monitorem o tempo de uso de tela e o conteúdo, dessa forma eles poderão viver mais a realidade através das brincadeiras ativas e atividades em família.
Não só para as crianças, como também para os adolescentes, os pais devem motivá-los e apoiá-los a encontrarem propósitos, motivações e satisfações com a vida real. Mantenha e estimule relações de afeto e vínculos de confiança para que o adolescente reconheça seu lugar de pertencimento fora das redes sociais.
É importante ressaltar que os pais devem ser apresentados como exemplos, diminuindo o tempo com o mundo e focando mais nas interações familiares.
*As informações contidas nesta matéria foram consultadas no site do Hospital Pequeno Príncipe e do Conselho Federal de Medicina. Disponível em: https://pequenoprincipe.org.br/ e https://pequenoprincipe.org.br/.
Autores:
Alanna Machado Dos Santos, Gilmar Capistrano Macedo, Nathielle Cristiny Dias Moura e Thalia Tavares da Silva

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